Nos alimentamos diariamente, realizamos essa prática diversas vezes ao longo do dia e nem sempre paramos para observar nossos hábitos alimentares. O ato de comer é carregado de significados, podemos pensar na alimentação através da saúde, tanto física quanto psicológica, podemos pensar nela por um viés social e também ambiental partindo de hábitos alimentares sustentáveis.

Criança se alimentando.
Fonte: Guia Alimentar para a População Brasileira, 2014. Brasil

Um pouco sobre a história da industrialização

Após a Segunda Guerra Mundial houve um enorme crescimento tecnológico que afetou diretamente a produção de alimentos. Deu início ao que hoje conhecemos como produtos ultra processados. A industrialização causou grande impacto no comportamento alimentar da população a nível mundial.

Os alimentos ultra processados passam por tantas modificações e adições de químicos, que o consumidor nem sempre consegue distinguir qual a origem daquele alimento. Veja o exemplo de um salgadinho de pacote, sabemos que ele é feito a base de milho porque essa informação está presente na embalagem, porém não identificamos o milho ao ver ou saborear esse alimento.

Utilização do milho para exemplificar os níveis de processamento que um único alimento pode ser exposto.
Utilização do milho para exemplificar os níveis de processamento que um único alimento pode ser exposto. Fonte: Guia Alimentar para a População Brasileira, 2014. Brasil

Comportamento social alimentar

A intitulada “dessacralização da refeição em família”,  termo dado pelo autor Ariovaldo Franco, também é um fator que afetou o comportamento alimentar da sociedade. Tal termo define a inserção da mulher no mercado de trabalho.

A partir do momento em que as mulheres passaram a trabalhar fora de casa, reduziu-se o tempo das mesmas para trabalhos domésticos, fazendo com que toda a família aumentasse o número de refeições realizadas fora do domicílio.

Como somos frutos de uma cultura patriarcal, até os dias de hoje não conseguimos nos habituar à igualdade de gênero e divisão igualitária de atividades domésticas. O aumento do número de redes de comercialização de refeições prontas é uma das consequências desse marco para a história das mulheres.

“Seu filho vai viver 10 anos a menos que você devido ao ambiente alimentar que construímos.”

Jamie Oliver

Atualmente vivemos um ritmo de vida acelerado, o que podemos chamar de cultura do fast. Buscamos por rapidez e praticidade no momento de realizarmos nossas escolhas alimentares e acabamos por aumentar o consumo de fast food’s e alimentos prontos, fatores que nos afastam de hábitos alimentares sustentáveis.

Recorte de um trecho do filme “Muito Além do Peso”

Hábitos alimentares sustentáveis que contribuem com a nossa vida e a vida do Planeta

Já falamos aqui sobre a construção de hábitos sustentáveis no seu dia a dia. Hoje muitos de nós já temos conhecimento das diversas consequências que a alimentação pode causar para a saúde humana. Embora seja um assunto que ainda precisa ser muito difundido na sociedade, principalmente pensando na população com maior vulnerabilidade social e menor acesso à informação.

Nosso atual padrão alimentar, por um outro lado, pode influenciar e prejudicar a saúde do planeta. Por trás da nossa alimentação existe uma enorme cadeia de produção. Ela engloba desde a criação e alimentação de animais que serão abatidos, até a forma como os alimentos serão produzidos, transportados, armazenados e consumidos. Da mesma maneira que essa cadeia de produção gera gastos econômicos, os recursos naturais também são gastos em larga escala.

Será que a forma como a maioria da população se alimenta hoje, visa hábitos alimentares sustentáveis?  

Fonte: WWF-Brasil

A industrialização do alimento

Os alimentos industrializados fazem uso de grandes quantidades de embalagens plásticas, ou outros materiais descartáveis. Como o Brasil não possui uma gestão de resíduos adequada, essas embalagens normalmente são depositados nos lixões, corpos hídricos e oceanos. Além do mais, quando financiamos as grandes indústrias nos esquecemos que por vezes esses produtos vem de longe e possuem uma larga logística de transporte. Logística que, segundo a WWF, é responsável pela emissão de aproximadamente 100 milhões de toneladas de CO2 por ano. Sem contar que com todo esse transporte e comercialização, acabamos por perder e desperdiçar muitos alimentos.

Todo tipo de produção feita pelo ser humano inicia-se com a utilização de recursos naturais. Para tal, o planeta já perdeu grande parte da vegetação dos importantes biomas brasileiros, decorrente de queimadas e derrubadas de florestas.

A agropecuária e o impacto ambiental

Corte raso de 160 hectares em área de Reserva Legal em Tapurah (MT). Ações como essas visam expandir uma produção agropecuária que impactam o meio ambiente.
Corte raso de 160 hectares em área de Reserva Legal em Tapurah (MT). Ações como essas visam expandir uma produção agropecuária que impactam o meio ambiente. Fonte: Ibama

Na criação animal, por exemplo, gasta-se entre 10 e 20 mil litros de água para produzir apenas 1kg de carne bovina.

As granjas industriais, de acordo com a Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), causam grande poluição de água devido aos dejetos animais despejados em corpos d’água. Visto que, a produção de dejetos de uma granja industrial pode igualar-se a produção de uma cidade pequena. Estes dejetos contaminam a água subterrânea, superficial e encanada.

Com relação a emissão de CO2 na atmosfera, produzir 1kg de carne bovina equivale a 1.600 km percorridos por um carro, ou seja, 335 kg de CO2 emitidos.

Além disso, a indústria do agronegócio é uma das maiores responsáveis pelo desmatamento da Amazônia e do Cerrado brasileiro, devido a abertura de espaços para pastos e plantação de soja para alimentar os rebanhos.

Resumo do impacto ambiental positivo ao retirar a carne do seu cardápio por apenas um dia.
Resumo do impacto ambiental positivo ao retirar a carne do seu cardápio por apenas um dia. Fonte: Pelo Planeta SBV

Os agrotóxicos e seus impactos

Outro ponto da alimentação que tem forte impacto tanto para a saúde humana quanto para a saúde do meio ambiente é a utilização exacerbada de agrotóxicos no nosso país.

Os agrotóxicos são químicos utilizados para auxiliar no desenvolvimento das plantações e tem como objetivo eliminar pragas, plantas invasoras e doenças. Embora esses objetivos pareçam louváveis, os agrotóxicos são extremamente danosos para a saúde humana e também para o meio ambiente, capazes de gerar inúmeras doenças, poluir o solo, as águas e o ar.

A contaminação do solo pode ocorrer pela aplicação direta do produto, através da água contaminada com o produto ou pelo descarte incorreto de embalagens. O solo retém o contaminante e com o tempo tem sua biodiversidade reduzida, acabando por se tornar infértil e improdutivo.

Já o ar contaminado faz com que esses produtos se espalhem e causem intoxicações tanto em humanos quanto em animais e plantas.

Os ricos gerados pelos agrotóxicos

Diferença dos riscos agudos e crônicos causados pela exposição humana aos agrotóxicos.
Fonte: Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos – PARA

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), em números brutos, o Brasil lidera o ranking como o país que mais consome agrotóxicos no mundo. O consumo destes produtos pode causar danos agudos e crônicos para a saúde.

O risco agudo leva o indivíduo à intoxicação, podendo causar abortos espontâneos, alergias de pele, problemas respiratórios e, dependendo da quantidade de exposição, pode levar à morte. Já o risco crônico inclui o risco de câncer a longo prazo, problemas neurológicos, má formação fetal e desregulação hormonal.

Quando presentes na água, os agrotóxicos podem desencadear a morte de espécies de plantas e animais aquáticos, ou daqueles que consomem essa água. Nesse processo o ser humano também é atingido, ao fazer consumo de algum animal presente nesse habitat, ou ao ingerir a água contaminada propriamente dita.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) são registradas cerca de 20 mil mortes por ano devido o consumo de agrotóxicos. O Brasil ainda permite o uso em quantidades abusivas de agrotóxicos que foram proibidos ainda no século passado na União Européia (UE), Estados Unidos e Canadá, de acordo com o INCA.

Alimentos sem valor nutricional

Além do mais, o uso de agrotóxicos nos cultivos reduz o valor nutricional destes alimentos. Por exemplo, quando uma fruta é cultivada sem o uso de químicos para protegê-la, ela tem a necessidade de formar compostos para se defender por si só, o que acarreta em maior quantidade de compostos bioativos, vitaminas e minerais em sua composição. Com o uso dos produtos químicos, boa parte destes compostos não são formados, pois a fruta não precisa produzi-los em grande quantidade para se proteger, reduzindo seu potencial nutricional.

Sem contar que ao usarmos os agrotóxicos por tanto tempo e em grandes quantidades, as pragas se tornam resistentes ao produto, fazendo necessária a utilização de um novo químico, ou o aumento de sua quantidade.

Os agrotóxicos no Brasil

Uso de agrotóxicos na agricultura.
Uso de agrotóxicos na agricultura. Foto: Ministério da Agricultura

Para um agrotóxico ser liberado no Brasil, é necessário que ele seja aprovado pelo Ministério da Agricultura, pelo Ibama que mede os riscos ambientais e pela Anvisa que verifica os riscos à saúde humana.

Segundo a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), em maio de 2019 o Governo Bolsonaro já havia liberado o uso de 197 novos agrotóxicos no Brasil, sendo 26% destes proibidos na União Europeia. O sistema político brasileiro parece estar mais interessado na economia do que na saúde da população e do meio ambiente.

Com essa perspectiva, surgem propostas como o projeto de lei 6.299/2002, conhecido popularmente como PL do Veneno. Projeto de lei que dá poder ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) para realizar a avaliação toxicológica das substâncias e aprovação do seu uso, diminuindo o poder de fiscalização da Anvisa e do Ibama. Em conclusão, o projeto tira o poder de diálogo dos órgãos que visam cuidar da saúde humana e do meio ambiente, facilitando a liberação de novos agrotóxicos e a utilização de concentrações ainda maiores dos produtos já existentes.

Comer é um ato social, político e ambiental

Com a nossa atual cadeia alimentar, torna-se difícil separarmos os agravos causados à nossa saúde, dos agravos causados ao meio ambiente. Ambos caminham juntos, por isso a importância de revermos nossos hábitos alimentares. Precisamos buscar por hábitos alimentares sustentáveis, quanto mais nos alimentamos inconscientemente, mais degradamos o meio ambiente e consequentemente acabamos por agredir a nossa própria saúde e a das futuras gerações.

Comer é um ato político, social e ambiental. Com toda essa informação, parece impossível mudar o mundo, porém precisamos nos atentar aos pequenos detalhes que cabem dentro da nossa rotina. Ou seja, mudar a nós mesmos para que sejamos espelhos e possamos mudar o todo.

Comida é uma poderosa ferramenta para influenciar a sustentabilidade, pois as decisões que tomamos sobre a nossa alimentação provocam impactos ambientais, sociais e econômicos nas cadeias de produção de alimentos.

Carolina Siqueira, analista sênior do WWF-Brasil

Construindo hábitos alimentares sustentáveis

Hoje em dia existem inúmeras instituições e iniciativas que caminham ao nosso lado nessa luta para um futuro melhor. Se informe sobre projetos como a “Segunda sem Carne” da SBV, ou sobre pecuárias comprometidas com o desmatamento zero.

Semana nacional da feira orgânica, Curitiba-PR (2017)

Busque as feiras agroecológicas da sua cidade, esses produtores precisam do seu apoio para crescerem e nos trazerem maior gama de alimentos responsáveis. No site Feiras Orgânicas você encontra um mapa com todas as feiras e pontos de comercialização de orgânicos e alimentos agroecológicos no Brasil, busque a mais próxima de você.

Procure descascar mais e desembalar menos, faça maior consumo de alimentos in natura do que de ultra processados, pense na sua saúde e no meio ambiente. Se informe sobre de onde o alimento que está consumindo veio, consuma mais de produtores locais e pequenos comércios. Se for possível faça sua horta caseira, tenha sua composteira, se não for possível, tente ao menos plantar seus próprios temperos. Ah, e falando em temperos, utilize menos temperos industrializados, prefira os naturais como a cebola, o alho, pimentão, cheiro verde, cúrcuma, são muitos!

Boicote empresas que não se comprometem com as questões ambientais, cobre delas, se todos falarmos, um dia seremos ouvidos.

Esses são alguns exemplos do que podemos fazer para tornarmos nossos hábitos alimentares sustentáveis e melhorar nossa relação entre alimentação, saúde e meio ambiente. Sei que parecem muitas frentes para abraçar, mas tente escolher pelo menos uma, aquela que mais se encaixe na sua rotina. Não é por parecer que estamos fazendo pouco que devemos deixar de fazer.

grupo montanheros

Grupo Montanheros é um coletivo multidisciplinar que atua com iniciativas de conscientização social e ambiental. O amor incondicional pela natureza e todas as formas que nela habitam é a essência que nos conduz.


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