Em março, após um dia de trabalho um grupo se reunia na calçada de um bar e como de costume divertiam-se lembrando das últimas trilhas que fizeram e das últimas montanhas que subiram. Também conversavam das caminhadas mais antigas, quando ainda eram adolescentes e também das que estavam por vir. Quantas vezes relembraram cada pico? Vezes infinitas, como eram também os encontros, como eram as conversas e como eram os detalhes lembrados, que mesmo quando não especificados ficavam subentendidos nos olhares brilhantes. Já estamos em agosto e, puxa, que saudade dos amigos, mas também que saudades da natureza!

Saudades da natureza e dos amigos. Foto: Danuza Neiva

A entidade natureza

Mas, o que é essa entidade a qual chamamos “natureza”? Que sentimento é esse que temos sobre ela e que nos une? Por conta de proibição estadual e por consciência social de não disseminar o vírus do Covid-19, que pode ser transmitida pelo ar mesmo que não se saiba que se está infectado, por ora, nós deixamos de frequentar espaços naturais de preservação. Vivemos profundamente as saudades da natureza e das riquíssimas serras e montanhas do Paraná.

E dessa forma parece que a pandemia veio para provar que as coisas que realmente importam são aquelas que pareciam supérfluas. Sejam elas um encontro entre amigos e o respiro do ar puro da natureza. Afinal, por que a natureza é tão sentimentalmente e psicologicamente importante? Por que dela sentimos uma saudade visceral, comparável até mesmo a um amor ausente?

Aquilo que chamamos “natureza”, em si, é somente uma abstração. Cada contexto e período histórico a concebe de uma forma, desde entidade mágica e religiosa até fonte de riqueza econômica simplesmente, de algo a ser preservado até algo que deveria ser cimentado. A tendência atual parece colocar a natureza em oposição a nós, seres humanos, que então teríamos superado um estado “selvagem”. Contudo, é inegável que mesmo assim a natureza tem se mantido ao longo da história como um importante objeto de reflexão humana. Disparando desejos, paixões e tensionamentos, conforme aponta Lenoble, em “A história da natureza”.

Saudades da natureza e a identidade existencial

No fundo há uma (óbvia) identidade entre nós, os seres humanos e a natureza. Afinal, a maior parte da história humana se deu de forma muito próxima a ela, desde primatas, caçadores-coletores, agricultores e assim por diante. Fato é que temos com a natureza uma identidade em comum e uma incrível atração, temos com ela uma ligação emocional e uma sensação ambígua de proximidade e de estranhamento, algo potente e inquestionável.

A natureza é se não a grande divindade que promove a vida. Foto: Pixabay

Não é à toa que a palavra latina natura deriva de natus (nascido), pois em nosso inconsciente certamente carregamos a noção de maternidade, com as leis próprias do que é vivo e do que é vital à existência. Não é assunto filosófico apenas e nem tão pouco cientificista. Trata-se de algo visceral, pois que se encontra ao mesmo tempo em nossa história e em nossa carne.

Assim, não é estranho ressaltar o seu extremo valor em nossa sentido da preocupação com o coletivo e com as próximas gerações.

Por que gostamos da natureza?

Já reparou como as pessoas podem arriscar a própria vida para salvar animais domésticos e selvagens? Que muitos gostam de ter jardins e plantas mesmo em apartamentos? Que entregamos flores às pessoas queridas? Essas questões estão associadas às pesquisas de Edward O. Wilson, um ecólogo norte americano que cunhou o termo “biofilia”, tendo lançado um livro sobre o assunto em 1984, com o mesmo nome.

A biofilia que está presente em nosso cérebro necessita de um reforço cultural para que não se desfaça

A biofilia indica a predisposição humana para gostar da natureza e se conectar aos demais seres vivos, como um instinto de sobrevivência inato em nosso cérebro, que compreende as ligações genéticas com os demais seres e com isso promove o cuidado, a tolerância e a convivência pacífica.

Claro que ao falar de biofilia automaticamente nos lembramos de seu oposto, a “biofobia”, a qual é intolerante, preconceituosa e exclusivista propiciando o domínio e a exploração desenfreada do meio natural. Algo muito atual em ações e discursos governamentais.

Como apontam os estudos, a biofilia embora já esteja em nosso cérebro, necessita do reforço cultural para que a nossa conexão e amor ao meio natural não se desfaça. Daí a importância tanto da proximidade com a natureza quanto da educação ambiental.

A reconexão e a promoção do bem-estar pessoal

Não é à toa que tem se falado em “ecopsicologia”, pois propiciar atividades na natureza restaura o bem estar e a saúde, além de nos ensinar sobre nosso pertencimento a esse meio. Ainda, atividades de esforço físico trazem leveza ao corpo e o prazer de superar o cansaço. São sensações de vitalidade, fruição e plenitude. Se o grupo de amigos mencionado no primeiro parágrafo sempre que reunidos costumam recordar das andanças pela natureza é pela identificação com esses sentimentos. Por entendê-los como síntese da existência mais arrebatadora. A natureza é uma representação e no ambiente festivo do bar ela era o ambiente do eterno retorno e da reconexão com o todo. E nesse sentido, a saudade fluía até que bem nos ciclos temporais, entre o estar “lá” e “cá”, entre natureza e cidade. Porém, algumas coisas têm se modificado, nos observamos e nos sentimos cada vez mais sozinhos.

Foto: Pexels

A Ecopsicologia é o encontro entre a Psicologia e a Ecologia, tanto como ciência como movimento social. Ela explora nossos vínculos psicológicos com a Natureza, revelando que nesses vínculos a dimensão biológica, a psíquica e a espiritual se interconectam.

Instituto Ecopsicologia Brasil

Saudades da natureza devido ao isolamento social

A saudade é um sentimento ambivalente, pois a lembrança ao mesmo tempo que traz felicidade também traz tristeza e até a melancolia visto que o retorno às exatas condições memoráveis é impossível. Enquanto que estar em meio à natureza tem sentido de união e vitalidade, a saudade vem de salu, que remete à solidão, ao isolamento e ao espírito que não se comunica, mas se desdobra sobre si mesmo.

A total impossibilidade de “matar a saudade”, isto é, de alcançar aquilo que se entende por existência efetiva do ser em comunhão, pode levar á morte em vida. Assim, o saudável saudosismo da roda de conversa de bar tem se transformado em constante ausência. Num período este em que vivemos que tem justamente o nome de “isolamento”.

Desafio individual e coletivo respeitar o isolamento social visando diminuir o contágio da pandemia de COVID-19

Observamos que, mesmo com as determinações de saúde para que as pessoas permaneçam em isolamento há muitos que quebram esse “pacto”. Como há ambientes de lazer na cidade que permanecem fechados e quebrar as regras nesses lugares parece mais complicado, tem ocorrido um grande fluxo de pessoas para as trilhas da serra do Paraná e o consequente aumento dos casos de contaminação dos moradores das regiões próximas. Por ignorância dos efeitos ou por descaso, o fato é que nem mesmo o gosto pela natureza nos salva do egoísmo.

O grupo Montanheros, que promove trilhas e ações socioambientais segue as orientações das entidades que são responsáveis pelas unidades de conservação em não visitar esses espaços. Que esse tempo de saudades da natureza seja utilizado para reflexão e comunicação em vista da educação ambiental, mesmo que por ora, sem visitas efetivas à natureza.

Que inspirados pela natureza e suas conexões cuidemos uns dos outros, afinal saudade é também a esperança do retorno.

Preservar para as futuras gerações

Visto que a natureza faz parte da nossa constituição histórica é como se a saudade sempre estivesse ali, um sabor do que nunca foi experimentado por completo a não ser por nossos ancestrais mais longínquos. Vemos hoje, por conta da exploração desenfreada dos recursos naturais, o risco real de que as gerações futuras sejam privadas de praticar esse vínculo belo e histórico com a natureza, e talvez assim ele deixe de ser importante, ficando só na dolorosa lembrança.

Grupo Coletivo Montanheros

O Grupo Montanheros é um coletivo multidisciplinar que atua com iniciativas de conscientização social e ambiental. O amor incondicional pela natureza e todas as formas que nela habitam é a essência que nos conduz.


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